A Análise Forense em Redes de Computadores é um ramo da perícia digital que investiga incidentes ocorridos em ambientes de rede, como ataques cibernéticos, acessos indevidos, vazamentos de informação, mau uso de sistemas e atividades suspeitas. Ela busca identificar, coletar, preservar e interpretar evidências geradas pela comunicação entre dispositivos conectados.
1. O Que é Análise Forense em Redes?
É o processo de examinar tráfego, registros e artefatos de comunicação de uma rede para:
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Identificar atividades maliciosas
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Determinar origem, métodos e consequências do incidente
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Coletar evidências válidas juridicamente
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Reconstruir eventos
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Ajudar na mitigação e defesa
Foca especialmente em dados como:
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Logs de firewall
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Logs de roteador e switch
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Capturas de pacotes (PCAP)
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Sessões TCP/UDP
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Eventos de IDS/IPS
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Registros de autenticação
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Metadados de tráfego
2. Objetivos da Análise Forense em Redes
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Detectar anomalias — comportamentos fora do padrão.
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Identificar autores e dispositivos envolvidos na ação.
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Descobrir vetores de ataque, como exploits ou vulnerabilidades exploradas.
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Determinar impacto e alcance do incidente.
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Preservar rastros digitais para processos legais.
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Apoiar estratégias de prevenção futura.
3. Principais Evidências em Redes Computacionais
A análise se baseia em diversos artefatos, entre eles:
3.1 Logs (Firewall, Proxy, DNS, DHCP, AD, VPN)
Permitem rastrear:
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origem IP
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destino
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portas acessadas
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horários
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tentativas de autenticação
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consultas suspeitas de DNS
3.2 Capturas de Pacotes (PCAP)
Essenciais para:
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reconstrução de conexões
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identificação de malware
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rastreamento de protocolos
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análise de payloads suspeitos
3.3 Tabelas de Roteamento e ARP
Usadas para reconstruir o caminho do tráfego e relacionar MAC/IP.
3.4 Metadados de Sessões
Incluindo:
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duração de conexões
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volume de tráfego
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padrões de comportamento
4. Técnicas de Análise Forense em Redes
4.1 Traffic Analysis
Monitoramento de fluxos NetFlow, sFlow ou IPFIX para detectar anomalias.
4.2 Log Correlation
Correlação entre eventos de:
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IDS/IPS
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SIEM
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Firewalls
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Servidores
4.3 Packet Reconstruction
Ferramentas como Wireshark, TCPDump e NetworkMiner são usadas para:
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remontar sessões
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extrair arquivos
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identificar comandos enviados
4.4 Carving de Protocolo
Extrair dados embutidos em protocolos:
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HTTP
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FTP
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DNS
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TLS
4.5 Análise de Ataques Comuns
Investigação inclui:
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DDoS
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Port scanning
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Brute force
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ARP spoofing
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Man-in-the-Middle
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SQL Injection via tráfego
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Exfiltração de dados
5. Ferramentas Utilizadas
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Wireshark
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TCPDump
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NetworkMiner
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Snort / Suricata
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Bro/Zeek
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ELK Stack (ElasticSearch, Logstash, Kibana)
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Splunk
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X-Ways Forensics
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Security Onion
6. Normas, Padrões e Boas Práticas Aplicáveis
6.1 Normas ISO/IEC
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ISO/IEC 27037 – Coleta e preservação de evidências digitais
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ISO/IEC 27041 – Validação de métodos
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ISO/IEC 27042 – Análise de evidências
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ISO/IEC 27043 – Processos de investigação de incidentes
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ISO/IEC 27035 – Resposta a incidentes
6.2 Legislação Brasileira
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Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014)
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LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018)
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Código Penal – Crimes Informáticos (Lei 12.737/2012)
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CPP – Cadeia de Custódia (Art. 158-A a 158-F)
6.3 Documentos Internacionais
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NIST SP 800-94 – IDS/IPS
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NIST SP 800-86 – Forense digital
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NIST SP 800-115 – Testes de segurança e redes
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RFCs de protocolos TCP/IP
7. Cadeia de Custódia nas Análises de Rede
Envolve:
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Identificação
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Registro
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Coleta
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Preservação
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Armazenamento
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Transferência
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Análise
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Apresentação em laudo
Cada etapa deve manter:
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integridade (hashes)
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documentação
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rastreabilidade
8. Desafios da Análise Forense em Redes
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tráfego criptografado (HTTPS/TLS 1.3)
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volume massivo de dados
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dispositivos IoT em redes híbridas
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rotatividade dinâmica de IPs
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ataques avançados persistentes (APT)
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redes distribuídas e ambientes em nuvem
9. Conclusão
A análise forense em redes de computadores é um pilar essencial na investigação de incidentes cibernéticos. Sua eficácia depende da correta coleta e interpretação das evidências, da aplicação de normas e legislações específicas e do uso de ferramentas apropriadas. O domínio dessas técnicas permite reconstruir eventos, responsabilizar agentes maliciosos e fortalecer a segurança das organizações.
